Escola Secundária de Seomara da Costa Primo

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Saturday, January 19, 2008

A "VERGONHA"

Liga-se a televisão, sintoniza-se um canal português (seja ele qual for) e, à primeira entrevista de rua do noticiário, seja ela sobre que assunto for, o comentário que brota da boca do/a entrevistado/a é, invariavelmente, “Isto é uma vergonha!”.
Tudo se revela como uma vergonha: a Educação é uma vergonha; a Saúde é uma vergonha; as estradas são uma vergonha; as greves são uma vergonha; a chuva é uma vergonha; a seca é uma vergonha. Tudo, mas mesmo tudo, é susceptível de ser uma vergonha!
Podemos assim considerar que vivemos num país envergonhado, constituído por cidadãos envergonhados, banhado não pelo Atlântico, mas por um enorme oceano de vergonha. Vergonha essa que parece sempre inibidora de qualquer acção. Sim, porque os cidadãos não se sentem revoltados: sentem-se envergonhados! Não se sentem capazes de desenvolver uma acção que seja para acabar com esse estado de coisas, pois sentem-se diariamente envergonhados. Manietados por essa mesma vergonha!
Gritam e reclamam alto e em bom som nas televisões, nas rádios, nas famigeradas “bichas” dos autocarros nas repartições públicas e nos cafés. Em poucas palavras, em todos os locais onde se encontram outros “envergonhados” como eles e onde sabem, igualmente, que a sua voz só será ouvida pelos mesmos.
“Isto é uma vergonha!”
Mas afinal, porque é que “isto” é uma vergonha? “Isto” é algo provocado por um “eles” (entidade enigmática, parente do não menos enigmático “sistema”) que o cidadão envergonhado acusa de ser o responsável pelos males do mundo, que não tem rosto, nem voz. Ainda assim, os seus acólitos são prontamente apontados e identificados: chamam-se “governo”, “ministro”, “presidente” (do que quer que seja), “grevista”, “motorista do autocarro”, “funcionário público”, “polícia”, “emigrante”, “Comunidade Europeia”, “professor” e outros e outros e outros, dependendo apenas da situação causadora da “vergonha”.
“Isto” é então algo que não pode ser mudado! “Isto” faz parte do “destino” (parente mais velho e talvez progenitor do “sistema” e do “eles”)! É o “fado” (outro)! Isto já vem desde o princípio dos tempos! Se “isto” acabasse, que justificação teríamos para nos sentirmos envergonhados?
A ordem das coisas seria subvertida!
Horror!

Este artigo foi redigido pelo Professor Paulo de Lemos.
O nosso muito obrigado pela sua participação!

2 comments:

António Valdez said...

Parabéns Professor! Costuma-se dizer que, quem tem vergonha passa mal. Mas o professor, na minha opinião, passou com um vinte!
CONTINUE!
António Valdez

João said...

Parabéns ao professor.
Já o ano passado ele tinha manifestado esta sua opinião numa aula minha.
abraço!

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