Escola Secundária de Seomara da Costa Primo

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Thursday, November 22, 2007

O Espectro no Quadro Interactivo

-Agora, podem observar uma imagem do nosso planeta captada por um dos satélites mais espectaculares… -começou a professora de História e Geografia, tocando num botão que fez aparecer o diapositivo no quadro.
Os alunos agitaram-se: era a primeira vez que viam usar o quadro interactivo. Por sorte, chovia copiosamente e não havia reflexos inconvenientes na tela. Anoitecia cedo em Novembro, pouco passava das cinco e meia. O barulho da chuva no telheiro do pátio criava uma sensação de desconforto, o que levou os alunos a cruzar os braços sobre o peito.
A professora pediu a uma aluna que se levantasse e identificasse os continentes e alguns países. A Marta tinha acabado de situar a Austrália quando, de repente, sobressaltada, gritou.
-O que foi, menina? É preciso gritar assim? O que foi?
-Setôra, olhe! Olhem todos! – apontou uma cara que surgia como se fosse um estereograma no meio do Pacífico.
A turma inteira gritou e saltou das cadeiras. Incrédula, a professora ainda perguntou: “Quem foi o engraçadinho que fez isto? Quem colocou esta imagem no computador?”
Perante a incontrolável agitação da turma, observou melhor a cara que se estava a animar. Apesar da superfície do quadro ser plana, a imagem era tridimensional, conferindo_ -lhe uma profundidade estranha, como se fosse um espelho ou um lago.
As colunas de som começaram a fazer um ruído insuportável, provocado por interferências. Soou um trovão, relampejou e a luz da sala apagou-se, ficando, porém, o quadro interactivo ligado. A cara continuou animada. Nesse momento, notaram que o penteado também se via- era uma mulher que os olhava ligeiramente de lado, com os lábios friamente apertados e uma atitude arrogante.
-Quem é essa?- perguntou o delegado de turma, mas ninguém lhe respondeu. Estavam todos em estado de choque. Ficaram ali alguns minutos sem saber o que fazer ou para onde ir, até que a corrente eléctrica foi restabelecida e o computador reiniciou após um bip.

Nunca a sala de professores pareceu tão distante à professora Joana Arco.
-Não imaginam o que me aconteceu…- desabafou tremendo junto dos colegas.
Um colega simpático deu-lhe uma chávena de chá de tília que ela bebeu, enquanto contava o sucedido, até que se imobilizou, afastando a chávena para poder olhar para o conteúdo. Lá estava ela no fundo da chávena- a mesma cara.
-Desculpem, não me sinto bem – balbuciou e correu para a casa de banho, onde passou o rosto por água fria, mas, ao levantar a cabeça, viu-a outra vez no espelho, aquela cabeça sem corpo nem alma. Tinha febre certamente! Pôs a mão sobre a testa. Não lhe parecia. Tinha de descansar. Voltaria para casa naquele preciso instante. Voou até à sala de professores para ir buscar a sua pasta, deixando indignados os colegas que a teriam de substituir no tempo lectivo que se seguia. Entrou no carro, deu à chave, ligou as luzes e, no vidro do pára-brisas, surgiu de novo o espectro.

A professora Joana Arco encontra-se internada no serviço 10, cama 30 do Hospital Júlio de Matos com o olhar fixo numa imperfeição do estuque do tecto.

O quadro interactivo voltou a ser utilizado, desta vez pelo professor José Bandarra. Consta que, no espaço de um ângulo recto, surgiu uma cara, embora não tenha sido redigida nenhuma participação, nem lavrada nenhuma acta sobre o caso.

Oui C’est Moi*/2007
Conto escrito pela Professora Filomena Silva, sob Pseudónimo, exposto na Biblioteca da Escola, durante a semana dedicada ao Halloween.

4 comments:

alfredogarcia said...

Temos de ter cuidado para não ficarmos de olhar fixo no estuque!
Obrigado pela chamada de atenção.

Avozinha said...

Gostei muito do conto e fiquei tão assustada, que nem me atrevo a usar o quadro interactivo...

António Valdez said...

Bem ... que conto mais arrepiante! Quem será o espectro que andou a atormentar uma pobre professora?

MUITOS PARABENS pelo conto!

Continue a escrever...

António Valdez

Anonymous said...

Temos escritora!
Todavia, receio que esse espectro seja mais do que uma produção fictícia. É que tenho andado com a sensação de que algo semelhante vagueia pela escola e me persegue, se bem que nem sempre tenha uma forma feminina. Pelo sim pelo não, vou marcar uma consulta.

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